http-equiv=’refresh’ content=’0; Boulevard of Ideas: Junho 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Famosos na infância

"As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental", já dizia Vinícius de Moraes e hipocrisias à parte, ele estava certíssimo. Não adianta vir com aquele papinho de beleza interior, porque na sociedade em que vivemos, beleza é o 'cartão de visita', é o que vai te impulsionar a conhecer alguém que você nunca tinha visto até então, e aí sim concluir se a pessoa é babaca, legal, etc.

Felizmente, o conceito de beleza é muito relativo, então não se desespere, mesmo que a sociedade não te ache um exemplo de beleza, sempre vai ter um maluco quem ache.

O post de hoje então, acaba tendo um objetivo motivacional na verdade, eu tô absolutamente sem criatividade alguma e achei isse num e-mail velho e de entretenimento, porque todo mundo tem um lado Sônia Abrão que adora saber da vida dos famosos e se regozijam quando percebem que eles são humanos como nós.

Já vimos alguns famosos na adolescência, então vejamos alguns outros na infância...


Angelina Jolie - tem cara de boneca desde pequena e não vou bancar a recalcada falando que ela tá magra demais e ficou com a cabeça desproporcional ao corpo, porque ela continua sendo a Angelina Jolie, casada com o Brad Pitt. Any other argument is invalid.


Jean Claude Van Damme - alguém poderia imaginar que com essa carinha de criança prodígio ele se tornaria um bam bam bam em artes marciais e acabaria fazendo filmes ridículos de ação?


Drew Barrymore - parecia um menininho travesso, e tirando a cara de garoto, pode-se dizer que travessa ela continuou, né? Tsk tsk tsk...


Michael Jordan - essa carinha de menino que engraxava os sapatos para ir a missa acabou se tornando o melhor jogador de basquete de todos os tempos.


Halle Berry - olhando esse rostinho de atriz de Carrossel, ninguém imaginaria que futuramente ela faria cenas tão sacanas quanto em A última ceia, não?


Eminem - com essa carinha de retardado, provavelmente sofreu bullying no colégio, revoltou-se, então resolveu exercitar os bíceps e cantar rap. Deu certo.


Julia Roberts - aposto que ninguém imaginaria que essa carinha de insuportável capeta se tornaria uma linda mulher, heim?


Keanu Reeves aka o cara que toda mulher quer levar para casa p/ cuidar - LINDO! (sem mais)


Leonardo DiCaprio - loirinho de olhos claros, rostinho angelical desde pequeno que cresceu e continuou com essa cara de bom moço, de 'genro que mamãe queria'. Booooooooooring!


Ricky Martin - esse menino fofo não se reprime mais e hoje vive la vida loca. Azar para as mulheres que poderiam ter alguma chance com ele not us, sorte p/s bofes né?


Mick Jagger - eu sei que é difícil imaginar que o dinossauro do rock já foi novo algum dia, mas o legal da internet é que a gente acha até fotos da era paleozoica, entãos eis a prova.


Freddie Mercury - impossível não reconhecer os dentões =D


Demi Moore - essa é a prova de que nem tudo está perdido!


Marilyn Manson - não sei se foi falta de Jesus no coração ou de porrada em casa que o deixou assim. MEDO Oo"


Jennifer Lopez - cara de criança deduro e que belisca os amiguinhos por debaixo da mesa, mas que quer pagar de meiga p/s mais velhos, sabe? Do tipo mais irritante mesmo... É, mas ela cresceu e hoje tá dando uns pegas no Rodrigo Santoro. Tem o meu respeito.


Tom Hanks - essa carinha de Cauby Peixoto não é que melhorou, mas recuperou a dignidade ao envelhecer...


George Clooney - ele é bonito. Fato. Charmoso. Óbvio. Sua mãe acha ele tudo de bom. Sua avó também. Você também acha. Embora não seja nenhum Johnny Depp, ou Hugh Jackman ou insira aqui seu sonho de consumo, ele continua sendo um dos caras mais cobiçados de Hollywood parece até que ele tem o poder de fazer mulher na menopausa voltar a ovular.

Meus leitores que me desculpem, por esse post absolutamente inútil e wannabe funny #Fail. Favor sugerir nos comentários sobre o que vocês gostariam que eu escrevesse =D

Hasta!



terça-feira, 19 de junho de 2012

Paul McCartney

Na pacata cidade de Petrópolis (região serrana do Rio de Janeiro) está rolando um festival chamado Solstício do Som, onde várias bandas locais se apresentam gratuitamente numa praça. Hoje, o dia foi dedicado ao rock então a galera pode curtir Led Zeppelin, Jimi Hendrix, The Doors, Guns n' Roses e vários outros nomes consagrados, mas de todas as músicas que ouvi, a que mais impressionou (não só a mim como pude constatar ao entreouvir uma conversa alheia numa pizzaria, depois do evento) foi Tomorrow Never Knows, a faixa mais experimental dos Beatles. Na verdade, não sei por que tô falando isso tudo, já que pelo título vocês já sabem do que se trata o post...

Enfim, tergiversei legal só para mencionar os Beatles, e assim, chegar até o James Paul McCartney que completou 70 anos neste 18 de julho.

Acho que seria clichê demais falar que ele fez parte da maior e melhor banda do mundo. Assim como eu estaria sendo repetitiva ao mencionar o fato dele ser uma grande músico, bem sucedido em todas suas empreitadas; ativista social e militante pelo direito dos animais; além de cantar por quase 3 horas até hoje e não fazer um playback, dando um banho em muito artista bem mais novo que ele; enfim, ele é O cara.

Poderia falar da vida dele, da obra.. Mas isso muitos já fizeram, muito melhor e mais detalhadamente do que eu seria capaz, então eis um top 5 com todas as fases do Sir:

For no one

Essa composição de Paul entrou no álbum Revolver dos Beatles e fala sobre sua experiência de viver com Jane Asher (sua namorada da época) quando tinha acabado de sair de casa. O título provisório era "Why did it die?", e ele admitiu depois que provavelmente era sobre mais uma discussão com ela.

And in her eyes you see nothing
No sign of love behind her tears
Cried for no one
A love that should have lasted years.

Escute aqui.

Maybe I'm amazed

Foi um dos sucessos de Paul logo após o término dos Beatles, e foi dedicada a sua esposa Linda, que o ajudou a superar o fim da banda.

Maybe I'm a man and maybe you're the only woman
Who could ever help me
Baby, won't you help me understand?

Confira aqui.

Getting Closer

É uma das músicas do Wings que eu mais gosto e que eu não sei explicar o porquê. Eu simplesmente amo o ritmo e gosto das rimas.

Hitting the chisel and making a joint,
Glueing my fingers together.
Radio play me a song with a point,
Sailor beware of weather.

Veja!

Say, say, say

McCartney e Michael Jackson, precisa de mais?

Say, Say, Say
What you want
But don't play games
With my affection
Take take take
What you need
But don't leave me
With no direction

Veja o clipe aqui.

My Valentine

Com participação especial de Eric Clapton, Paul compôs My Valentine para sua esposa Nancy Shevell e a canção virou música de trabalho de Kisses on the bottom, seu último álbum lançado.

Assista aqui.

(esse clipe é lindo! Tem o Johnny Depp e a Natalie Portman ^ ^)

Embora ele nunca vá ler isso, deixo aqui minhas singelas palavras.

Happy Birthday, Paul!

Que ele ainda viva muuuuuuuuuitos anos e continue lançando músicas excelentes e vindo para o Brasil, claro.

domingo, 10 de junho de 2012

Eu todinha

Terça-feira é dia dos namorados aka dia do recalque dos encalhados e como eu já fiz um post sobre isso há dois anos e um outro sobre Comédias Românticas, fiquei sem ideias para um outro post açucarado. Então vocês podem (re)lê-los aqui e aqui.

Antes do post de hoje, gostaria de convidar vocês a acessarem o Paranoia Magazine Digital que é bem divertido e tem uma coluna que eu particularmente adoro, que é a da "Revoltadinha" HAHAHAHAAHAHAHAHAH :D

Enfim...

Estava procurando textos que eu gosto e achei mais um da Clarice Lispector que creio eu, toda mulher se identifica, e que vai ajudar aos homens a entender um pouquinho do que se passa na nossa cabeça ;D

Eu todinha
Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e fico facilmente. Também sou muito calma e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre.

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.

Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar.

Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:- E daí? Eu adoro voar! Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar porque se olhares em mim verás.

Não sou tão má quanto pensas; apenas não sou tão corajosa como imaginas... Pareço forte mais no fundo sou fraca fera porém sou bela, às vezes chata mais no meu íntimo há sentimentos diversos; pareço metida porém se olhares em meu semblante com seu coração verás apenas humildade; calma sempre, posso até parecer solitária ... É que realmente tenho poucos amigos. A diferença é que os poucos que tenho não valem metade de um seu ... Pense nisso, depois me julgue. Lembre-se que se me julga pela aparência, sou apenas o reflexo de sua ignorância.

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

Não sei qual a minha culpa, mas peço perdão. A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não puderam ver. Peço perdão por não ser uma "estrela" ou o "mar" ou por não ser alegre, mas coisa que se dá. Peço perdão por não saber me dá nem a mim mesma, para me dar desse modo a minha vida se fosse preciso, mas peço de novo perdão, não sei perder minha vida.

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou, por assim dizer, vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que, que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano- já me aconteceu antes.

Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento. Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Eu sou uma pergunta.


Abro o jogo! Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta por natureza. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor, me poupem.

Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto. Meu coração está espantado. É por isso que toda minha palavra tem um coração onde circula sangue.

Dá-me a tua mão. Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso.

Não sei se quero descansar,por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir.

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.

É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

domingo, 3 de junho de 2012

Ore por mim

Olá,

se tem uma coisa que eu curto é ir à livrarias. O cheiro dos livros novos, as prateleiras cheias de novidades, aqueles autores queridos que eu sei exatamente em que estante estão e os pocket books, que trazem clássicos por um preço tão acessível, me fascinam e me fazem ficar horas lá dentro. Não consigo entrar sem abastecer minha biblioteca pessoal e folhear minhas novas aquisições, sentada no café desses lugares. (Podem falar o que quiser, mas esse é o tipo de programa que eu mais gosto de fazer no final de semana xD)

Enfim, foi numa dessas minhas idas que (isso vai ficar redundante) achei mais um achado. O livro se chama A última madrugada e é uma compilação de crônicas do J.P. Cuenca, escritor que até então eu desconhecia. Um bom cronista, para mim, é aquele que consegue transformar o simples e o banal numa narrativa interessante e porque não, reflexiva. E isso, pelo que pude constatar até agora, Cuenca faz como ninguém.

Por isso, o post de hoje é uma das crônicas deste livro que se chama Ore por mim, que eu achei de uma simplicidade e delicadeza ímpar, mas deixo aqui para vocês julgarem/opinarem/comentarem.

É noite e é a Lapa. Acompanhado por um cortejo de fiéis, saio do Nova Capela carregando a donzela com a mão esquerda e um saco plástico com a direita. Tenho o hábito suburbano de pedir a quentinha quando sobra comida na mesa – especialmente quando se trata do cabrito do Capela.

Mesmo que não vá comê-lo depois.

É o que normalmente acontece numa cidade onde o próximo passa fome. Na Rua do Riachuelo, quase sob os Arcos, sou interpelado por um sujeito. É um negro gordo, descalço e sem camisa. Pede um trocado, está com fome, desde ontem sem comer e o remédio que o governo… Numa reação instintiva, desvio o olhar, dou-lhe um drible de corpo e uma passada larga. Mas lembro da quentinha e paro.

Você quer? É cabrito. A expressão no rosto do homem se transforma. Estendo o braço, ofereço o saco plástico, o cabrito flutuando dentro de uma cápsula de papel alumínio. Do Capela? O homem me pergunta num tremor de comoção. É do Capela, ainda está quente, respondo. O tom atrevido do primeiro pedido já não existe. Agora o sujeito me encara com o olhar das senhorinhas ao santo padre.

O senhor é um sujeito iluminado. Eu estava aqui na maior necessidade e agora um cabrito… Muito obrigado. Saiba que tem aqui um amigo. Um novo amigo! Qual é o seu nome? O homem mistura as frases umas nas outras, agarra meu antebraço com a mão inchada. A donzela e meus velhos amigos já estão algumas dezenas de metros adiante. Quando olham para trás, se perguntam: estará louco?

Aqui, o homem insiste: qual o seu nome? Eu respondo. Ele me estende amão. Não se nega cumprimento a ninguém – e mão suja por imunda, já beijei piores. Meu nome é Luiz Alberto, e o senhor é um homem bom, repete e cresce para mim num abraço salpicado de areia.

Eu queria fazer um pedido ao senhor, me pergunta já com a posse definitiva dos restos do cabrito. É que a minha vida está numa pior. E agora me encara com os olhos injetados, as pupilas escuras como duas ilhas Cagarras num mar de sangue. Eu queria fazer um pedido, com toda a consideração ao amigo. Ao senhor amigo. É que o senhor não sabe as coisas que me acontecem. O senhor não imagina.

Agora, o homem já me constrange. Sua insistência me dá pena e certa irritação. Quando percebo que estou irritado, me sinto instantaneamente culpado – e mais constrangido. Quero sair dali, continuar meu périplo pequeno-burguês por bares sujos como a mão que o homem me oferece, e penso nos meus amigos e na donzela, imagino que já tenham se esquecido de mim, que tenham virado a esquina da Joaquim Silva e me deixado para trás – o que cedo ou tarde há de ocorrer, mas que não seja hoje, que não seja agora.

Começo a ir, a separar nossas existências em definitivo, ando de costas num passo ridículo, estico o pescoço para enfim ouvir o que quer o novo dono do cabrito, imaginando que jamais irei atendê-lo. E ele faz o pedido final, absoluto: ore por mim, senhor.

Luiz Alberto é meu nome. Não se esqueça do meu nome: Luiz Alberto. Ore por mim hoje à noite, senhor. Eu preciso. E o senhor não sabe. O senhor não imagina como eu preciso. Ore por mim. Não se esqueça…

Desapareço na sombra dos Arcos, jogo um aceno triste ao homem e sufoco o desejo de pedir ao Luiz Alberto que também ore por mim.