http-equiv=’refresh’ content=’0; Boulevard of Ideas: Outubro 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

Um pouco de Bukowski, Rubem Alves e Rubem Braga



Não é a primeira vez que me pego matutando sobre o que escrever aqui.. Reavaliando posts muito antigos, vejo o quanto esse blog já funcionou como depósito de abobrinhas e agradeço por ainda ter leitores tão fiéis como vocês. Por isso é melhor atualizar com menos frequência, para quando o fizer, tiver algo de útil (ou não tão imbecil hahahaha) para colocar aqui. Então, por falta do que dizer, dou a palavra (ou melhor, a leitura) a quem tinha muito o que falar e o faziam muito bem...

Hoje eu selecionei 2 textos de "Rubens" (Braga e Alves) que estou começando a conhecer e uns pensamentos de Bukowski, que era um boêmio obsceno, mas era brilhante. Nesta semana eu tive a oportunidade de entrevistar o Fernando Maatz, que é diretor da peça "Buk na rua - teatro noturno para adolescentes insones" onde são interpretados 4 contos do autor. Confira
aqui


Então, algumas frases do autor:

"Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.”

"É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom,bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa".

"A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda".

"O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.”

"Bem, todos morrem um dia, é simples matemática. Nada de novo. A espera é que é um problema".

"Um intelectual é um homem que diz uma coisa simples de uma maneira difícil; um artista é um homem que diz uma coisa difícil de uma maneira simples".

"Sou um alcoólatra que virou escritor para poder ficar na cama até meio-dia".

"Quanto mais o tempo passa, menos eu significo pras pessoas e menos elas significam pra mim".

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Rubem Alves - Ostra feliz não faz pérola

"Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores.

Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário... Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste... As ostras felizes riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão..." Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.

O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.

Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz..."

Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras,e vale para nós, seres humanos.
As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores da alma".

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Rubem Braga - Despedida

"E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo".

Espero que tenham gostado ;D

Bjos

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dia das crianças

Para muitos o dia 12 de outubro é só mais um entre os vários feriados que temos, que serve para fazer aquele churrasquinho com os amigos, beber a tarde inteira e dormir no que sobrar do tempo. Pode ser que sim, mas para mim é mais um dia onde eu fico nostálgica.

Começo a recordar da minha infância. As mesinhas coloridas do jardim I, o gosto das guloseimas que já não vendem mais, o cheiro de terra misturado com a ferrugem dos brinquedos de parquinhos, os roxos no joelho, a merendeira vermelha, as professoras que eu chamava de tia, a hora do recreio, as brincadeiras, os amigos que tomaram seus rumos e hoje só são imagens na fotografia e outros que permaneceram e continuam fazendo parte da minha história.

Lembro dos cantinhos onde eu colocava minha toalha da Mônica para merendar com as minhas amigas, comer "Ana Maria" e beber água em alguma garrafinha térmica bonitinha. Depois gastar algum dinheiro comprando bala ou um boneco de farinha e achar que fiz um grande negócio.

Minha maior preocupação era entender fração com denominadores diferentes e manter meu tamagoshi vivo. Minha mesada, eu gastava com figurinhas para algum álbum que eu estava colecionando ou chaveiros ou qualquer acessório de papelaria. Fazíamos coleção de canetas de cheiro. Cheiro de chocolate, de pipoca, de fruta.. Papéis de cartas decorados. Como mandei e enviei cartinhas que tenho guardadas até hoje. Devem ser os dizeres mais sinceros que já recebi.
Jogar bola pelo simples prazer de jogar. Participar de olímpiadas e ganhar medalha ganhando ou perdendo. Apresentações de colégio. Ahh essas eram as melhores. Já dancei Chiquititas (lembram delas?), Britney Spears, Xibom bombom e outros que é melhor deixar p/ lá...

A infância passou e eu nem me dei conta. De repente eu estou na faculdade, lidando com adultos e outras preocupações. As derrotas e as decepções, agora, deixam um gostinho amargo, marcas mais profundas e não passam ao ganhar um chocolate. Mas as lembranças dos bons momentos, ajudam manter a criança que ainda mora dentro de mim. Afinal, como dizia Simone de Beauvoir - "O que é um adulto ? Uma criança de idade".

;*

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sala de aula

Olá,

Gente, não sei se já postei esse texto.. Tava dando uma olhada nos arquivos do blog, e se postei não foi com esse nome, então se é repetido, desculpem a falta de memória!
Como dia 15/10 é dia dos professores, resolvi postar esse texto que escrevi numa aula da faculdade há uns 2 anos já xD

Como vocês vão poder perceber, essa aula me deixava muito entediada..



Sala de aula


Num ambiente com não mais de 40 metros quadrados e mais de cinquenta
pessoas, uma figura solitária se destaca na frente da pequena multidão.

Ela fala, discursa, faz de tudo para fazer com que o olhar de uma pessoa repouse
nela por pelo menos mais de 10 segundos. Em vão.

Pessoas atrasadas e muito atrasadas. Pessoas que se isolam no fundo.
Pessoas que se recostam nos cantos. Pessoas.

Trocas contantes em suas posições. Pernas que cruzam e descruzam.
Bocejos. Gestos que demonstram tédio. O corpo que fala.

Mãos que sustentam cabeças que viajam em seus próprios mundos.
Olhares que a olham tão de perto mas que enxergam muito além. Tão além
que se perdem na imensidão das paredes brancas manchadas e marcadas
pelo mofo.

No ar, se destaca o som de sua voz que as vezes fica abafada pelo som
de muitas outras palavras.
Essas palavras, que são cochichadas em conversas fiadas, são as mesmas
palavras que trocam confidências.

Escuto um som abafado em algum lugar desse pequeno espaço fechado e sem
janelas. É um ronco.
Não sei se é o ronco de um estômago que implora por comida
ou se é o ronco de uma pessoa exaurida.

Faço silenciosas orações para o tempo acelerar os segundos que passam
mais lentamente que uma tartaruga disputando corrida com uma lebre.

A figura solitária não desiste. Continua firme e forte na frente das pessoas
falando, falando, falando e falando mais um pouco.

Suas palavras viram longas senteças, suas sentenças viram textos mais longos
que a própria Bíblia.

Palavras entram. Palavras saem, mas a única que eu assimilo é: a aula acabou.

É isso..

Bjs